De 13 de Maio de 2006 a 31 de Dezembro de 2012, o meu primeiro blog

//Subscrever

Posts

Domingo, 30 de Julho de 2006

1. Uma iniciativa de sucesso

Encerra hoje a 4ª edição da “Feira da Terra”, uma organização da câmara municipal que, pelo segundo ano consecutivo, se realiza no Largo da Feira, área cuja concepção polivalente parece responder bem às exigências de um semelhante evento.

A unanimidade relativamente à excelência do conceito e da organização dispensam mais elogios. Espero por isso que as ideias que pretendo registar nesta oportunidade sejam entendidas como contributos e não como o registo de defeitos a corrigir. São opiniões que partilho com a consciência de que são, também elas, limitadas e falíveis pelo que estarei disposto a revê-las no confronto das ideias e dos projectos.

2. Os mesmos recursos para outros problemas

Quem, como eu, trabalha na autarquia que procura servir com o melhor de si, sabe que para esta organização têm sido postos, desde sempre, o melhor dos recursos materiais e humanos. Sobretudo destes últimos, competentemente coordenados pelo Eng. Alfredo Pinto Coelho, chefe de divisão de Desenvolvimento Municipal. Com meses de distância, são mobilizados meios e pessoas de todos os departamentos, numa opção de prioridades que faz da “Feira da Terra” uma celebração da capacidade, da competência e da energia criadora do concelho. Um produto autêntico, verdadeiramente local.

Paradoxalmente, neste mesmo fim-de-semana, regista-se mais uma falha, durante algumas horas, no abastecimento público de água. É a segunda vez no espaço de pouco mais de uma semana e, infelizmente, sempre ao fim-de-semana. Como não pensar em colocar toda a energia criadora, a vontade e o querer dos técnicos e demais funcionários da câmara municipal na resolução deste problema recorrente? Sei que muitos reduzem este problema a uma questão de quantidade: com a construção da nova adutora, em alta, cujas obras se iniciarão em breve, haverá água com fartura! Sou de opinião que até esta forma de pensar carece de uma mudança. Trata-se da gestão de recursos e não do seu consumo desenfreado e um tanto descontrolado, resultante, em grande medida, da ideia, incorrecta, que a água é um produto natural, sem custos de produção. Uma ideia que os baixos custos imputados ao consumidor (em muitas das nossas aldeias e freguesias a custo zero...) confirma.

Uma autarquia que tem a capacidade de organizar uma “Feira da Terra” assim, tem, seguramente, capacidade para elevar outros projectos ao mesmo nível de exigência, na concepção, e de excelência, na realização.

3. "Feira da Terra" versus "Festas do Concelho"

Este mesmo sucesso tem ofuscado as Festas do Concelho a ponto de haver quem defenda o seu desaparecimento ou fusão. Deixarei de lado, por agora, a desproporção de meios que são postos à disposição de ambas as organizações. Pergunto antes se não haverá alguma complementariedade entre as duas iniciativas? No programa das “Festas” está, por exemplo, a realização da “Procissão do Padroeiro” (na circunstância, S. Cristóvão de Mondim, em dia que, liturgicamente, é também de S. Tiago) que começa a tornar-se na “Procissão do Padroeiros” com a presença de representações de todas as paróquias e até de alguns lugares. Quantos motivos, quantos eventos permitem aos mondinenses celebrar tão significativamente a sua unidade e identidade?

4. E agora?...

Ao entrar no espaço da Feira em qualquer das 4 noites do seu calendário, tem-se a sensação de estar a entrar num verdadeiro fórum, a praça pública da civitas romana, onde a reunião dos cidadãos era a essência da cidade. A pretexto de uma bebida, de uma refeição, de um jogo, de um espectáculo, sucedem-se as conversas, a troca intensa de emoções e de opiniões que alimentarão, em grande medida, o inverno da nossa agenda cívica e política. São, também neste sentido, verdadeiras “festas”, um momento convencionado de ruptura com o quotidiano onde são permitidos, e até estimulados, alguns exageros, indispensáveis à catarse de pulsões menos saudáveis. Então porque não associar a esta “Feira” de produtos uma “Feira” das ideias? Este ano, uma vez mais, a sessão solene (?) de abertura foi precedida de um acto de natureza cultural. Mas o facto de o programa não mencionar o(s) orador(es), o facto de esta sessão se realizar a um dia e a uma hora em que a maioria dos interessados está a trabalhar, e, por fim, a ausência, que começa a ser habitual, dos mais altos responsáveis do município, faz desta sessão uma espécie de composição floral destinada apenas a colocar na lapela ou na mesa de sessões da organização. Não tenho a certeza que valha a pena ou seja evidente a oportunidade de promover, com a feira, um congresso ou um conjunto de seminários. Os hábitos e até a meteorologia são capazes de não ajudar ao sucesso de uma tal iniciativa. Mas tenho a certeza, por outro lado, que tal depende também da convicção com que as coisas são promovidas e o que parece evidente é que um determinado tipo de cultura, mais erudita, não tem ainda as simpatias das nossas elites e da nossa população, o que é preocupante e tem no insucesso escolar um dos seus sintomas.

Nos dias que precedem a “Feira da Terra”, não são apenas os recursos camarários que são mobilizados, mas muita energia adormecida entre os munícipes, e suas instituições, mais criativos. A “Feira da Terra” tem sido um estímulo à criatividade de indivíduos e associações que, num esforço, por vezes de “última hora”, vêm mostrar o que sabem e gostam de fazer para bem da comunidade. As sugestões que pretendo deixar com estas reflexões vão no sentido de fazer compreender que a “Feira” não se confina afinal àquele tempo e àquele lugar e que, também por isso, deveria ultrapassar a dimensão estritamente consumista do momento e abrir-se a novas dimensões, sem descurar o conceito que o Eng. Pinto Coelho tão ciosamente, e bem, tem defendido.

JNobre às 09:00
|