De 13 de Maio de 2006 a 31 de Dezembro de 2012, o meu primeiro blog

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Domingo, 25 de Outubro de 2009

Presunção e água benta

Há uns anos, a pretexto da morte do empedernido transmontano que foi Miguel Torga li, nas colunas de um jornal local, um artigo pretensioso em que o pobre autor ensaiava um elogio fúnebre, à medida da sua presunção: “À semelhança de Miguel Torga, também eu sofri as perseguições da PIDE”, escreveu. Com este preâmbulo espero escapar ao ridículo que seria pretender responder a Saramago. Não tenho essa pretensão nem estou mandatado senão pela minha consciência. Escrevo com a liberdade de espírito que me permite uma leitura pessoal do seu comportamento e depoimentos públicos mais recentes, com a certeza, triste mas inexorável, que ele não lerá, alguma vez, este ou qualquer outro dos meus comentários.

Declaração de interesses

 
Gosto do que José Saramago escreve - as suas ideias provocam-me e estimulam-me - mas não tenho competência, nem tal me preocupa agora, para opinar se ele deve, ou não deve, ser Nobel. Nesta matéria, como em outras, semelhantes, “a César, o que é de César…”. Aprecio a irreverência de Saramago, a sua heterodoxia, gosto do seu espírito resistente e combativo. Reconheço que, a par de outros autores, artistas plásticos e cientistas (como ele iconoclastas que questionam o senso-comum, ou a absoluta falta de senso, de alguns valores dominantes no nosso tempo) parece ter um desejo sincero de mudar, para melhor, o mundo que partilhamos. Mas, como tantos homens da arte e da ciência, Saramago anda às voltas com a questão do religioso. Para resolver os seus conflitos interiores, estuda, estuda-se, revolve e resolve. Daí que, a afirmação recorrente do seu ateísmo militante, me permita duvidar da sua “sinceridade” mais íntima, porque toda a negação redundante passa por afirmação. Se Saramago não trabalhasse a questão, dentro de si, não sentiria o impulso que o leva a pensar e a escrever, sobre religião.

A (última) tentação de Saramago

 
Está visto que José Saramago necessita das luzes, da imprensa, da atenção pública, da provocação, para respirar. É, de certo modo, um “entertainer”. Com as suas declarações, consegue o que pretende: atrair os microfones, as luzes, as câmaras e ser o protagonista na Agenda mediática. Não resiste à tentação do marketing e lança um livro “polémico” na correnteza do mercantilismo natalício. Não é, de todo, um ingénuo. Na encenação dos eventos, das conferências, entrevistas e sessões de autógrafos, busca as mesmas compensações místicas que os religiosos encontram nos espaços e rotinas litúrgicas. Fala no registo autorizado de um velho clérigo, a partir de cátedras bem servidas de recursos mediáticos. Dirige-se a um público “fiel” e a uma imprensa carecida de sensacionalismo erudito. Uns e outros não conseguem disfarçar a má-consciência, a vergonha e o desconforto que sentem, quando abordam as questões religiosas, pretendendo ignorar que também a Religião é cultura. Em certo sentido até, a fonte de toda a Cultura, como testemunha a história da arte em qualquer das suas expressões e civilizações, a que Saramago, pelos vistos, não escapa.

Santa ignorância

A opinião, circunstancial, de José Saramago sobre a Bíblia só pode referir-se ao Velho Testamento e, ainda assim, ignora quanta sabedoria, poesia e conhecimento esses livros encerram. Saramago fica-se pelas referências ao execrável e ao obsceno, como se, da leitura dos Autos, apenas lhe interessasse a Acusação! Sim, é verdade que toda a porcaria da vida está nos livros da Bíblia. A Verdade desses livros começa no facto de nada omitirem do que a vida tem de sórdido. Porquê? Porque é a partir dessa realidade obscura que se faz a História dos resgates, da emancipação dos povos, da dignificação do trabalho, da diligência, do esforço humano, fruto da amorosa cumplicidade entre o Criador e as suas Criaturas. Parece então que o que surpreende Saramago não é tanto que Deus possa realmente existir, mas que, existindo, se revele como um deus emotivo, que “sente” e reage, com Suas alegrias e tristezas, como se pudesse partilhar a nossa pobre condição.

Rupturas históricas

 
Ao contrário de Caim, cuja historicidade José Saramago fez questão de negar como se isso pudesse fazer qualquer diferença para a história, Jesus Cristo, o Nazareno, existiu mesmo. Viveu há cerca de 2000 anos na sua Palestina natal, região então ocupada, política e militarmente, pelos burocratas e militares romanos. Judeu de nascimento e cultura religiosa, foi crucificado às mãos de uma conveniente aliança entre política e religião, a pretexto das rupturas implícitas nos seus ensinamentos e propostas de vida. “Nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos”, escreveu Paulo de Tarso aos primeiros convertidos de Corinto (1:23). Para as culturas dominantes será sempre escandaloso que Deus tenha real e alguma vez, morrido. Aconteceu na pessoa de Jesus Cristo, no turbilhão das culturas do Tempo! Porém, a História não acabou ali e, para os Cristãos, cada madrugada é como a daquele dia primeiro que viu a ressurreição do Filho do Homem.

Elefante em loja de porcelana

 
Não surpreende que as iniciativas de ruptura partam geralmente de líderes e autores criativos, artistas plásticos, cineastas ou escritores. São os que buscam incessantemente novas visões, questionam o porquê das coisas, ensaiam novos modelos de ordenação, arriscam seguir por caminhos novos. Neste contexto, a vaidade de Saramago pode até nem ser pecado. Mas os veredictos que o seu estatuto internacional facilita, parecem-me um tanto desastrados, e sobretudo desbaratam bastante do seu património humanístico.

 

JNobre às 13:53
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Caro Nobre
Gostei do que escreveu. Você foi uma pessoa, mais uma, que seguiu a voz da consciência e que fez uma boa apologia do livro mais lido e do maior best seller de sempre. Nem que seja uma voz no deserto, deixe-a soar bem alto. Parabéns.
Helcio Lange a 25 de Outubro de 2009 às 22:39

Quem conhece o Arquitecto José António Nobre, sabe que as suas doutas opiniões, são uma verdadeira "bíblia".
É culto, não é preconceituoso nas suas análises sobre a literatura de "Saramago" e principalmente, é sério nas observações e nas ideias.
Dizia, "Albert Einstein", que É MAIS FÁCIL DESINTEGRAR UM ÁTOMO DO QUE UM PRECONCEITO.
Obviamente, que tenho o Arquitecto José António Nobre, na mais alta consideração e sempre que posso, aqui estou a dar uma espreitadela no seu "blog", para melhor saber e com a exenção que lhe é peculiar, as novidades mais recentes, sobre tudo que tem a ver, com os senhores políticos da nossa praça.
Meu caro Arquitecto, pelo respeito e grande consideração que tenho por si, peço-lhe, que nunca como até aqui, deixe da manifestar publicamente a sua sábia opinião. Os grandes Mondinenses não são apenas os que cá nasceram; se calhar, muito maiores, são aqueles que escolheram esta terra para viver; e alavancados na consciência pura do conhecimento da verdade, se dispôem a ser intérpretes da prática do bem, e nunca sublevados por teorias de uns tantos, que publicamente apreguavam o Céu e se sabia que a meta seria o inferno.
Mondim é inorme e sabe agradecer a quem lhe faz bem.
Um grande abraço.
JTS
jts a 6 de Novembro de 2009 às 22:29

Eu, - que até passo quase diariamente pelo Município - nunca tive a oportunidade de observar o andamento das obras da nova "Casa da Democracia Local", como muito bem lhe chama, o senhor Arquitecto Nobre.
A quando da posse dos novos autarcas, já realizada no novo espaço municipal, foi me dito por um amigo, que houve casa cheia e que tudo decorreu com grande normalidade.
Espera-se a partir de agora, que os intervenientes políticos, saibam dignificar esse espaço e que ele passe a constituir um paradigma de liberdade de expressão para todos no estrito respeito democrático.
JTS
jts a 6 de Novembro de 2009 às 22:39

Aqui está um mondinense da diáspora para felicitar o distinto autor deste blogue pela forma séria e fecunda com que trata os temas de seu alfobre cultural. Depois, corroborar o que JTS deixou expresso à cerca dos que de fora tem vindo enriquecer com o seu labor e generosidade a vila e concelho de Mondim, como por exemplo: nos transportes, um Silvério Nobre que fundou a Auto-Mondinense ; na saude, um Dr. Brito, que foi um autêntico João Semana de todo o concelho; na investigação histórica, um Dr. Primo Casal Pelayo, a que se seguiu o médico Eduardo Teixera Lopes são entre outros figuras que não sendo naturais de Mondim, como o Sr.Arq. José António Nobre a Mondim se deram de alma e coração. A minha homenagem a todos.
aquimetem a 7 de Novembro de 2009 às 19:46