De 13 de Maio de 2006 a 31 de Dezembro de 2012, o meu primeiro blog

//Subscrever

Posts

Terça-feira, 11 de Agosto de 2009

 

O respeitado editor do semanário Newsweek, Fareed Zakaria, alinha no optimismo dos analistas que consideram que a crise bateu no fundo e que há evidentes sinais de retoma. Porém, o principal indicador a que recorre é o do consumo interno, nos Estados Unidos da América. O artigo de uma página constitui como que o Editorial da edição de segunda-feira, 10 de Agosto de 2009 e tem por título “Get Out The Wallets” o que poderia traduzir-se, literalmente, por “tirem as vossas carteiras para fora” mas cujo sentido será, tanto quanto me parece, “abram as carteiras” apelando à confiança dos consumidores comuns.
Para se ter uma ideia da importância do assunto, cito as duas últimas linha do primeiro parágrafo: “O nosso consumo [interno] é equivalente ao dobro da soma das economias da China e da Índia”. Não tenho conhecimentos suficientes para perceber se Zakaria está a comparar o volume dos consumos dos três países, entre si, ou de diferentes indicadores dessas economias, mas sabendo-se que estamos a falar de dois dos países mais populosos do planeta – a China e a Índia – a imagem é para respeitar. Por outro lado, convidar os norte-americanos a consumir não será apenas uma questão de retoma na confiança, mas de uma espécie de profissão de fé no sistema financeiro tal como sempre o conhecemos até Setembro/Outubro do ano passado. Ora, isso assusta-me e já explico porquê.
 

 

Puritanos, poupados e trabalhadores.

Pensei nada escrever. Afinal, que entendo eu de economia? Para mais, de economia global? Mas é possível que a ultrapassagem dos períodos críticos careça de opiniões, de muitas opiniões, particularmente se baseadas em factos e argumentos. E a verdade é que esta coisa do consumismo nunca me convenceu. Muitas vezes penso que a minha desconfiança relativamente à ideologia do consumo deve alguma coisa à minha cultura cristã, católica romana, (isto é, da Europa do sul) já que as crenças, não apenas religiosas, sempre desempenharam um papel fundamental, senão mesmo determinante, na história das nações, na história do dinheiro, na política em geral. Muitos analistas referem a condenação moral do “lucro” pelos clérigos da idade média e pelo discurso oficioso da contra-reforma como uma das matrizes que mais contribuiu para a emergência de um mercado monetário autónoma, de uma rede de serviços financeiros, com as suas sedes nas grandes metrópoles da Europa e do Médio Oriente.

 

 

O próprio Zakaria escreve, a dado passo no citado artigo, que “enquanto [cidadãos] americanos levam-nos a acreditar que somos geneticamente codificados para consumir. Na verdade não se trata de uma questão de ADN. Historicamente, os norte-americanos têm sido vistos como puritanos, poupados e devotados trabalhadores.” Apesar disso, porém e de acordo com o articulista, a cultura consumista cresceu, particularmente a partir do início da década de 70 do século passado, pelo efeito conjugado de alguns factores. Por um lado, havia o receio de que a inflação monetária digerisse os magros juros pagos pela banca aos depositantes, por outro, os governos das economias ocidentais promoveram políticas de estímulo ao consumo, induzidas através do acesso ao crédito barato, sem contrapartidas políticas de apoio à poupança.

Por uma ecologia dos ciclos produtivos.

 
Se observarmos com um pouco mais de atenção o ciclo de vida de um produto, desde a colheita da matéria-prima de base, passando pela transformação, comercialização, venda e consumo, rapidamente percebemos que nada sabemos do que se passa “depois”. Qual o tempo de vida útil do produto, conforme se trate de um consumível, um objecto ou um utensílio? Uma vez descartado, o que sucede aos seus componentes? Reintegram-se rápida e facilmente no ciclo produtivo ou permanecem em processo de degradação “natural” por tempos mais ou menos determinados? Tomemos como exemplo a indústria automóvel. Certamente já todos pudemos ver, através dos diferentes media, uma linha de produção de veículos motorizados. Mas já nos foi dado observar o seu negativo, isto é, uma linha de desmontagem? Sejamos honestos. Apesar dos esforços e das pequenas conquistas, a verdade é que o sistema está ainda longe de ser sustentável e, como tal, apelar ao consumo, sem mais, é convidar à contínua degradação dos recursos com as consequências ambientais, logo sociais e, por fim, económicas, já conhecidas.
 
 
Enquanto economicamente não for compensador integrar as fileiras de reciclagem nos ciclos produtivos, apelar ao consumo é fazer com que retomemos o curso da espiral de crescimento, em pirâmide, que não tem outro destino que não seja a ruptura a prazo. A não ser que o Universo esteja realmente em expansão - até quando? - nada pode crescer indefinidamente, muito menos a partir de recursos limitados e em contexto de equilíbrio precário como é o dos nossos frágeis eco-sistemas.

Uma Outra Economia.

O Ouro já foi. O sistema monetário, de que o Dólar norte-amerciano terá sido o expoente máximo, chegou aonde chegou e tem, a meu ver, os dias contados. Poderá acontecer, e é o mais certo, que as mudanças que se avizinham venham a ser não apenas imprevisíveis, passe a redundância, mas que não ocorram em tempo de vida das gerações contemporâneas. A economia do futuro, que se adivinha e é já teorizada, será a economia assente sobre um valor imaterial e difícil de medir: a economia do conhecimento e da criatividade. O desafio que se coloca às nossas gerações é o de perceber qual o papel reservado aos recursos primários, particularmente os relacionados com os alimentos, mas também com a água e o ar de cuja qualidade estamos absolutamente dependentes. O desafio que se coloca é o de perceber o que é que a produção de conhecimento tem que ver com isso.
 
 
Tenho estado atento aos discursos, avisados, de um certo retorno a tudo o que é local: a agricultura, o artesanato, a cultura, a economia. Mas vejo nisso muito mais uma espécie de recuo estratégico, um “parar para pensar”, sem deixar de considerar que, na dúvida, melhor será observar bem a realidade envolvente, antes de nos precipitarmos numa aventura sem horizonte.

Por isso temo por esta solução: abram as carteiras e comecem a consumir. Porquê? Para quê?

JNobre às 18:50
|

Caro Nobre, parabéns pelo artigo. Gosto dele não só pelo seu raciocínio fluido como também pelo seu enquadramento histórico. Partilho também as suas preocupações e expectativas no sentido vital de assegurar-mos uma qualidade de vida, no mínimo razoável e sustentável, para as nossas gerações vindouras. Acredito porém que tudo virá no seu tempo, que espero próximo mas não tão perto como me parece o caro amigo sustentar.
O mundo está consciente que há muito para mudar e isso para mim já é reconfortante. Mas o mundo sabe que para a mudança ser pacifica, - mau seria se assim não fosse - há ciclos e rotinas que não podem pura e simplesmente parar. Será neste ciclo que teremos que inventar outro ciclo. Vejo o Get Out The Wallets ”, não o titulo em si claro está, mas toda a esta corrente de opinião que induz nesse sentido como um acordar da crise um "toca a mexer". Acredito estar a assistir frame by frame a um novo american way of living que se poderá tornar num modo de vida mundial. Confesso aqui a minha simpatia pró americana. Não a cinzenta de Bush mas a genialidade prodiga de muitos outros entre Jefferson e Obama , que moldaram, influenciaram e muitas vezes fascinaram a história moderna mundial. Mas a realidade vive-se dia a dia. Neste degrau a degrau. Existência , subsistência e sobrevivência são permanentes. Sendo que esta última depende das primeiras. É deste impasse que vive o nosso presente. Ser americano, é ser tudo isto ao quadrado. É essa a sua génese. Para continuar a satisfazer essa necessidade, da qual nós europeus também não somos alheios ,muito pelo contrário, terá o planeta - a malfada globalização poderá aqui ter a sua hipótese de redenção - que reinventar novos métodos de produção, novos meios de distribuição e novas atitudes com as matérias primas. Mas não nos iludamos que não será para já, e será sempre numa prespectiva de forma a reinventar novas formas de consumo. Seria hipócrita da minha parte admitir como razoável e tentador um futuro regresso às origens preconizado, por exemplo, pelos simpáticos holandeses que vivem aqui entre nós e dos quais tenho a maior simpatia e relativa distância. Não é esse tipo de futuro que me atrai. Não me parece o caminho da solução mas fatalidade da sua ausência. Soluções zero não fazem o meu carácter. Não os subestimo. Registo os seus temores e as suas evidências que são nossas também, mas aguardo outras perspectivas outras soluções. Convicto e preparado senão para as inventar nelas activamente participar. É uma atitude. É mudança. É fé também.

Até lá estou obrigado a esgotar tonners que não gosto mas que ávidamente consumo, imprimir em papel feito de árvores que muito gosto mas que apenas me lembro de vez em quando. Tudo isto transportado em carros que me envenenam, mas que para já não abdico até para me passear.


deRoma a 12 de Agosto de 2009 às 04:17