De 13 de Maio de 2006 a 31 de Dezembro de 2012, o meu primeiro blog

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Sexta-feira, 01 de Maio de 2009

Política de verdade?

 
Na tarde de Domingo, 26 de Abril, um pequeno grupo de interessados na metodologia proposta pelo livro de Rob Hopkins (2008), “O Manual da Transição”, reuniu em Mondim de Basto para ver e debater o filme/documentário “The End of Suburbia” (2004). De entre os temas que o visionamento me suscitou, escolhi na ocasião falar sobre o exercício da verdade na política, a partir do depoimento de um dos entrevistados no filme. Estes respondiam à pergunta: tendo o fim do ciclo do petróleo consequências previsivelmente tão graves, porque é que são ignorados pelos media norte-americanos? Entre outras considerações, Richard Heinberg afirma: “[Porque] a realidade é má para os negócios. O que é bom para os negócios é a fantasia”. Assim me parece ser também com a verdade: é má para a política; pelo contrário, o que convém à política é a ilusão; digo eu.

Votar no mesmo é diferente.

 
Já há bastante tempo que me interrogo e busco respostas para esta pergunta: porque parecem preferir os eleitores, os munícipes e os mais directamente afectados pelas decisões políticas, a ilusão à realidade? Creio que parte da resposta está nesta ideia: dizer a verdade é fechar as portas às imensas possibilidades de escolha que a ilusão comporta. É fechar a porta à alternativa dos sonhos, das soluções engenhosas. Cansados de dilemas e de leituras complexas, os eleitores preferem os discursos cheios de soluções à medida, que descartam as contrariedades, ignoram os sacrifícios ou que, em qualquer caso, adiam o sofrimento. Este sentimento gera um paradoxo: a cada oportunidade de votar há como uma esperança latente de mudança, uma réstia de motivação, que desafia uma necessidade de estabilidade e segurança. Assim, vota-se no mesmo, acreditando que fará diferente. Vota-se naquele que, antes, nos mentiu, porque queremos dar-lhe, a ele e a nós, mais uma oportunidade. Tolera-se o cinismo do político, travestido, que hoje está muito próximo dos que ontem criticou. Aliás, em politiquês, a palavra “mentira” nem existe; diz-se “in-verdade” no discurso politicamente correcto.

Legitimamente acima da lei.

 
Este fenómeno deve muito mais à carência de emoções positivas, do que à racionalidade que costuma atribuir-se ao exercício da política, e é claramente estimulado pela cultura mediática. Num mundo completamente mediatizado, vendido à dinâmica da publicidade, o público paga para ter ilusões porque isso lhe alimenta a fantasia e lhe concede viver uma outra vida, mais tolerável e emocionalmente compensadora. Os eleitores são atraídos pela sedução do poder e acreditam que há no eleito (o escolhido, o ungido…) uma legitimidade, sufragada, que está acima da legitimidade jurídica. Ao vencedor, atribui-se um estatuto de imunidade que o torna inimputável. Gostamos de acreditar que “quem manda” pode sempre mais do que aquilo que a lei permite e piscamos o olho à engenhosa desfaçatez do político e ao seu famoso poder discricionário.
 
Sim, a realidade é má para os negócios como a verdade é má para a política. O que é bom, para os negócios, como para a política, é a ilusão da vida fácil, a fantasia.
 
"Aquele orçamento, caro senhor, era uma mentira descarada.
A verdade amarga chega mais tarde
."

 

Créditos: remisso   pensar basto   fortuna verde

 

 

JNobre às 23:21
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