De 13 de Maio de 2006 a 31 de Dezembro de 2012, o meu primeiro blog

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Quinta-feira, 01 de Junho de 2006

No dia mundialmente dedicado à criança e que em Portugal é encerrada a primeira das maternidades que o governo decidiu desactivar, pareceu-me oportuno propor a leitura de uma artigo escrito por Robert J. Samuelson para o semanário Newsweek (edição de 29 de Maio 2006) sob o título The End of Motherwood?

Para um crescimento demográfico sustentado, cada mulher deveria dar á luz, em média, 2 filhos. Este índice designa-se por “Taxa Total de Fertilidade, TTF”. A título de exemplo, em 2005 a TTF na Alemanha e no Japão, fixou-se em 1,4; na Grécia, Itália e Rússia 1,3; Polónia 1,2. Um índice TTF baixo, não significa necessariamente um declínio na população. Este pode ser compensado por políticas de emigração e pela expectativa de vidas úteis mais longas. De qualquer modo, o declínio de população nos países do primeiro mundo e em particular na Europa é muito preocupante nas suas implicações sociais e económicas: saúde, reformas, défice de mão-de-obra... A quebra de natalidade é geralmente associada a níveis de vida elevados e os fenómenos culturais, que estarão na sua origem, perfeitamente identificados: aumento da esperança de vida (uma vez que os serviços de saúde são mais eficazes, os casais geram menos filhos…); crescimento urbano (a mão-de-obra que o mundo rural exigia não tem contrapartida no mundo urbano…); o acesso generalizado das mulheres à educação e ao trabalho; métodos contraceptivos; casamentos em menor quantidade e cada vez mais tardios; aumento dos divórcios.

Mas há uma excepção que parece contrariar este quadro: os Estados Unidos da América, onde a TTF está em 2,1. E não se pense que tal se deve ao contributo das classes mais baixas, de origem hispânica ou africana, já que a TTF entre os brancos não-hispânicos é 1,9 e cerca de 2,0 para os afro-americanos. O que poderá então explicar a excepção americana? O articulista refere-se a estudos do demógrafo Nicholas Eberstadt que elenca três diferenças relativamente à Europa e a outros países desenvolvidos: mais optimismo, mais patriotismo e valores religiosos mais fortes.

Havendo tempo e oportunidade, seria bom reflectirmos sobre a importância social da auto-estima, individual e colectiva, e suas consequências ao nível do desenvolvimento local. Nesta circunstância retirarei deste artigo leituras um pouco mais limitadas, como segue.

Pode parecer paradoxal mas o facto de o Estado assegurar bons serviços sociais, incute nas sociedades a ideia de que a família é dispensável. Por sua vez, os meios económicos que essas políticas exigem, sobrecarregam de impostos e outras exigências performativas (bons desempenhos profissionais, necessidade de formação escolar complementar…) os jovens activos que, por motivos económicos, adiam os seus projectos de constituir família. Colocando-me numa perspectiva local, não sei o que é mais preocupante, se a quebra demográfica que desafia o nosso ordenamento social e territorial ou a perda dos valores culturais (a que associo os valores religiosos…), meios e motivações para nos mantermos lúcidos e solidários. De uma coisa estou há muito certo. Uma das maiores crises é de autoridade (quem viu a reportagem-debate sobre a violência nas escolas na passada terça-feira?). Não porém uma autoridade policial, punitiva. Pelo contrário, o tipo de autoridade que se exige às gerações de hoje é uma autoridade de comportamento, testemunho e compromisso. Está visto que os nossos jovens convivem mal com o esforço e com o sofrimento a que os pais, por amor ou má consciência, os subtraem. O exemplo das lideranças que nos servem é, pelo contrário, o ganhar muito fazendo pouco (sucesso!) num corrupio de expedientes em que os atropelos à dignidade do outro se justificam com uma ingenuidade aparente: mas não somos todos assim? Parece que não. Parece que há excepções.

JNobre às 20:00
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