Sábado, 31 de Outubro de 2009
A Casa da Democracia Local

As construções nascem do reconhecimento de que deve haver um lugar onde a mente se concentre e, de algum modo, possa actuar. Louis Kahn, arquitecto (1901-1974)
Não sou o autor do projecto de adaptação do antigo lagar e adega da Casa do Eirô a edifício da “Assembleia Municipal”. Para que conste, os autores chamam-se Renata Palhares e Rui Bastos, arquitectos, que contando com a estreita colaboração dos técnico-profissionais Abel Oliveira, Carla Leite e Carlos Queirós, constituem, nos serviços técnicos municipais, o que vamos designando por GTL, Gabinete Técnico Local. Posso entretanto assumir, com o também meu colega João Garrido, parte da responsabilidade pela opção de ali instalar a Assembleia Municipal. Fi-lo pelos motivos que procuro explicar neste artigo.

O sistema de governação municipal tem na Assembleia o poder “legislativo” e fiscalizador e na Câmara Municipal o poder executivo situação que, por vezes, suscita dúvidas quanto ao lugar de precedência protocolar dos respectivos presidentes. Dado porém, que o presidente da Câmara Municipal representa institucionalmente o município, tem realmente precedência protocolar sobre o presidente da Assembleia Municipal. Além disso, a prática das últimas décadas de poder autárquico, reforçou o carácter presidencialista do governo municipal. Sabe-se, no entanto, que há acordo entre os partidos políticos para que deixe de haver dois sufrágios paralelos – um para o executivo camarário e outro para a assembleia, como aconteceu recentemente – para passar a haver apenas uma eleição directa para a designação dos deputados municipais. A ser assim, o executivo emergirá da própria Assembleia Municipal, sendo constituído por escolha pessoal do cabeça de lista do partido mais votado que, para as vereações, poderá escolher qualquer dos deputados eleitos.
Dotar o órgão autónomo e específico que é a Assembleia Municipal no contexto das instituições municipais, de um edifício próprio, é dar visibilidade física e simbólica a este importante fórum local de decisão, enquanto se criam condições para que realmente se possam exercer as suas competências únicas e exclusivas.

Durante a concepção do projecto, tive presente alguns princípios de
Louis Kahn, arquitecto do século passado, russo de nascimento, mas norte-americano de formação e cultura. Para ele, por entre o silêncio contido das suas paredes, um edifício tem vida própria. É de Kahn o seguinte enunciado:
quando um espaço tem consciência do que quer ser, torna-se num lugar com carácter particular. Da reflexão pessoal que os ensinamentos de Kahn sempre me suscitaram, nasce a minha convicção de que os espaços, particularmente os interiores, são indutores de comportamentos e inspiradores de atitudes e iniciativas; podem influenciar a mente e o espírito. Mais que a beleza, característica tão superficialmente atribuída à Arquitectura, é da natureza da Arte de conceber os edifícios, que estes contenham, na forma e na compartimentação, a alma da instituição que acolhem, seja a Família, a Escola, o Tribunal, ou a Igreja. Assim, espero ver no edifício da Assembleia Municipal de Mondim de Basto, a Casa da Democracia Local, um espaço que suscite ideias e debates, onde, com elevação e dignidade, sejam concebidas as linhas orientadoras válidas para os que aqui residem, por opção ou por nascimento, e para os que aqui desenvolvem a sua actividade profissional, agentes económicos que nos diferentes sectores compõem este tecido social.

Estive na tomada de posse do executivo e da Assembleia Municipal recentemente eleitas mas não o fiz por simples curiosidade cidadã. Quis ver, com os meus olhos, como se comportava o edifício e até que ponto responderia perante as novas exigências. Creio que passou o teste, porque o ambiente da sessão foi sereno e digno, apesar de o auditório estar completamente cheio, com cerca de 2/3 dos presentes, de pé, nas alas e na galeria. No final, cumprimentei alguns deputados e a Prof.ª Laura Ínsua, presidente eleita pelos seus pares, a quem fiz questão de dizer que haveríamos agora que trabalhar para dotar o edifício de recursos físicos e humanos (mesmo se a tempo parcial) que garantam a sua utilização como secretariado e arquivo de um património de, pelo menos, 35 anos de democracia local. Se, além disso, formos capazes de promover uma agenda cultural própria, que passe pela promoção de eventos como conferências, exposições, concertos de câmara ou pela representação de pequenas peças de teatro, teremos justificado o investimento financeiro que ali foi feito, convertendo a Casa da Democracia, num verdadeiro fórum de ideias. Pode ser ambicioso este projecto, mas sinto que já terá faltado mais para conseguirmos concretizá-lo.

Domingo, 25 de Outubro de 2009
A viagem do elefante
Presunção e água benta
Há uns anos, a pretexto da morte do empedernido transmontano que foi Miguel Torga li, nas colunas de um jornal local, um artigo pretensioso em que o pobre autor ensaiava um elogio fúnebre, à medida da sua presunção: “À semelhança de Miguel Torga, também eu sofri as perseguições da PIDE”, escreveu. Com este preâmbulo espero escapar ao ridículo que seria pretender responder a Saramago. Não tenho essa pretensão nem estou mandatado senão pela minha consciência. Escrevo com a liberdade de espírito que me permite uma leitura pessoal do seu comportamento e depoimentos públicos mais recentes, com a certeza, triste mas inexorável, que ele não lerá, alguma vez, este ou qualquer outro dos meus comentários.
Declaração de interesses

Gosto do que José Saramago escreve - as suas ideias provocam-me e estimulam-me - mas não tenho competência, nem tal me preocupa agora, para opinar se ele deve, ou não deve, ser Nobel. Nesta matéria, como em outras, semelhantes, “a César, o que é de César…”. Aprecio a irreverência de Saramago, a sua heterodoxia, gosto do seu espírito resistente e combativo. Reconheço que, a par de outros autores, artistas plásticos e cientistas (como ele iconoclastas que questionam o senso-comum, ou a absoluta falta de senso, de alguns valores dominantes no nosso tempo) parece ter um desejo sincero de mudar, para melhor, o mundo que partilhamos. Mas, como tantos homens da arte e da ciência, Saramago anda às voltas com a questão do religioso. Para resolver os seus conflitos interiores, estuda, estuda-se, revolve e resolve. Daí que, a afirmação recorrente do seu ateísmo militante, me permita duvidar da sua “sinceridade” mais íntima, porque toda a negação redundante passa por afirmação. Se Saramago não trabalhasse a questão, dentro de si, não sentiria o impulso que o leva a pensar e a escrever, sobre religião.
A (última) tentação de Saramago

Está visto que José Saramago necessita das luzes, da imprensa, da atenção pública, da provocação, para respirar. É, de certo modo, um “entertainer”. Com as suas declarações, consegue o que pretende: atrair os microfones, as luzes, as câmaras e ser o protagonista na Agenda mediática. Não resiste à tentação do marketing e lança um livro “polémico” na correnteza do mercantilismo natalício. Não é, de todo, um ingénuo. Na encenação dos eventos, das conferências, entrevistas e sessões de autógrafos, busca as mesmas compensações místicas que os religiosos encontram nos espaços e rotinas litúrgicas. Fala no registo autorizado de um velho clérigo, a partir de cátedras bem servidas de recursos mediáticos. Dirige-se a um público “fiel” e a uma imprensa carecida de sensacionalismo erudito. Uns e outros não conseguem disfarçar a má-consciência, a vergonha e o desconforto que sentem, quando abordam as questões religiosas, pretendendo ignorar que também a Religião é cultura. Em certo sentido até, a fonte de toda a Cultura, como testemunha a história da arte em qualquer das suas expressões e civilizações, a que Saramago, pelos vistos, não escapa.
Santa ignorância
A opinião, circunstancial, de José Saramago sobre a Bíblia só pode referir-se ao Velho Testamento e, ainda assim, ignora quanta sabedoria, poesia e conhecimento esses livros encerram. Saramago fica-se pelas referências ao execrável e ao obsceno, como se, da leitura dos Autos, apenas lhe interessasse a Acusação! Sim, é verdade que toda a porcaria da vida está nos livros da Bíblia. A Verdade desses livros começa no facto de nada omitirem do que a vida tem de sórdido. Porquê? Porque é a partir dessa realidade obscura que se faz a História dos resgates, da emancipação dos povos, da dignificação do trabalho, da diligência, do esforço humano, fruto da amorosa cumplicidade entre o Criador e as suas Criaturas. Parece então que o que surpreende Saramago não é tanto que Deus possa realmente existir, mas que, existindo, se revele como um deus emotivo, que “sente” e reage, com Suas alegrias e tristezas, como se pudesse partilhar a nossa pobre condição.
Rupturas históricas

Ao contrário de Caim, cuja historicidade José Saramago fez questão de negar como se isso pudesse fazer qualquer diferença para a história, Jesus Cristo, o Nazareno, existiu mesmo. Viveu há cerca de 2000 anos na sua Palestina natal, região então ocupada, política e militarmente, pelos burocratas e militares romanos. Judeu de nascimento e cultura religiosa, foi crucificado às mãos de uma conveniente aliança entre política e religião, a pretexto das rupturas implícitas nos seus ensinamentos e propostas de vida. “Nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos”, escreveu Paulo de Tarso aos primeiros convertidos de Corinto (1:23). Para as culturas dominantes será sempre escandaloso que Deus tenha real e alguma vez, morrido. Aconteceu na pessoa de Jesus Cristo, no turbilhão das culturas do Tempo! Porém, a História não acabou ali e, para os Cristãos, cada madrugada é como a daquele dia primeiro que viu a ressurreição do Filho do Homem.
Elefante em loja de porcelana
Não surpreende que as iniciativas de ruptura partam geralmente de líderes e autores criativos, artistas plásticos, cineastas ou escritores. São os que buscam incessantemente novas visões, questionam o porquê das coisas, ensaiam novos modelos de ordenação, arriscam seguir por caminhos novos. Neste contexto, a vaidade de Saramago pode até nem ser pecado. Mas os veredictos que o seu estatuto internacional facilita, parecem-me um tanto desastrados, e sobretudo desbaratam bastante do seu património humanístico.
Segunda-feira, 19 de Outubro de 2009
Expectativas
Na gestão por objectivos, saber colocar a “fasquia” na altura certa é a primeira condição de sucesso. Optar por objectivos modestos, como os que os tempos de depressão económica sugerem, pode acomodar-nos, tornar-nos lentos, se não mesmo medíocres. Fixar objectivos ambiciosos ou nos mobiliza e encoraja – quando tais objectivos são alcançáveis – ou, pelo contrário, faz-nos desistir, antes mesmo de arrancarmos, se considerarmos tais objectivos irrealistas.

Quando se desenham, vislumbram e instalam novos governos, a nível da nação e do município, que expectativas são as nossas? Não se pense que esta é uma responsabilidade “deles”, dos eleitos. Há uma responsabilidade nossa, na medida em que, da nossa exigência, relativamente à tolerância com que os avaliaremos, depende o nível a que a tal “fasquia” será colocada. Como só pode desiludir-se quem alguma vez se iludiu, melhor será fixarmos objectivos realistas, expectativas ajustadas aos recursos, nomeadamente de tempo e de dinheiro, para que possamos exigir na medida do alcançável.
Todo o poder é efémero. Todo o poder é “a prazo”. Cedo ou tarde nova oportunidade para rever e avaliar opções, objectivos, expectativas e lideranças, surgirá.
Domingo, 20 de Setembro de 2009
Os meus "livros abertos" #3
Um “blog”, um “site” não actualizado é como um jardim não cuidado. E no entanto, isso não nos dá o direito de “escrever por escrever”, sobretudo se o pretendermos “publicar”, isto é, “tornar público”, permitir que seja lido por terceiros.
Talvez, por tudo isto, não valha a pena escrever sobre aquilo que, não existindo, nenhuma diferença fará que venha ou não à luz. Já me referi ao “Direito de Não Ler” decretado por Daniel Pennac, proponho agora uma reflexão sobre “O Direito de Não Escrever”, neste tempo em que a actualização dos “blogs” é uma exigência quase totalitária que se nos impõe, até ao insignificante.
Quinta-feira, 10 de Setembro de 2009
Os meus "livros abertos" #2
O Direito de Não Ler...

[ nos meus livros abertos]
Terça-feira, 25 de Agosto de 2009
Os meus "livros abertos" #1
Como me comprometera, abro os meus livros. Faço-o em tempo de férias, sem deixar de considerar a sua pertinência e uma certa "ordem", pessoal.
Começo com "A Biblioteca", um pequeníssimo livro-conferência de Umberto Eco (1991).

[ler no livros abertos]
Quarta-feira, 19 de Agosto de 2009
A Sabedoria de "O Livro"
O Livro dos livros encerra surpresas. Esta aconteceu-me hoje. Li-a e pensei: como se ajusta ao presente, relativamente às escolhas que fazemos! Por vezes, a escolha de uma liderança política parece recair no "mínimo denominador comum", isto é, no menos mau dos candidatos. Não está em causa a legitimidade do sufrágio, apenas se questiona até que ponto realmente serve ao desenvolvimento dos povos. Também a democracia é, como já dizia Churchill, o menos mau dos sistemas.
Agora leiam o que se segue e verifiquem a actualidade. É um excerto do livro dos Juízes (capitulo 9, versículos 6 a 15), e reza assim:

Juntaram-se todos os senhores de Siquém para proclamar rei Abimélec.
Quando a notícia chegou a Joatão, este foi colocar-se no cimo do monte, ergueu a voz e disse-lhes:
«Ouvi-me, senhores de Siquém!
As árvores puseram-se a caminho para ungirem um rei para si próprias.
Disseram, então, à oliveira: ‘Reina sobre nós.’
Disse-lhes a oliveira: ‘Irei eu renunciar ao meu óleo, com que se honram os deuses e os homens, para me agitar por cima das árvores?’
As árvores disseram, depois, à figueira: ‘Vem tu, então, reinar sobre nós.’
Disse-lhes a figueira: ‘Irei eu renunciar à minha doçura e aos meus bons frutos, para me agitar sobre as árvores?’
Disseram, então, as árvores à videira: ‘Vem tu reinar sobre nós.’
Disse-lhes a videira: ‘Irei eu renunciar ao meu mosto, que alegra os deuses e os homens, para me agitar sobre as árvores?’
Então, todas as árvores disseram ao espinheiro: ‘Vem tu, reina tu sobre nós.’
Disse o espinheiro às árvores: ‘Se é de boa mente que me ungis rei sobre vós, vinde, abrigai-vos à minha sombra; mas, se não é assim, sairá do espinheiro um fogo que há-de devorar os cedros do Líbano!’

Terça-feira, 11 de Agosto de 2009
É o consumo, estúpido!

O respeitado editor do semanário Newsweek, Fareed Zakaria, alinha no optimismo dos analistas que consideram que a crise bateu no fundo e que há evidentes sinais de retoma. Porém, o principal indicador a que recorre é o do consumo interno, nos Estados Unidos da América. O artigo de uma página constitui como que o Editorial da edição de segunda-feira, 10 de Agosto de 2009 e tem por título “Get Out The Wallets” o que poderia traduzir-se, literalmente, por “tirem as vossas carteiras para fora” mas cujo sentido será, tanto quanto me parece, “abram as carteiras” apelando à confiança dos consumidores comuns.
Para se ter uma ideia da importância do assunto, cito as duas últimas linha do primeiro parágrafo: “O nosso consumo [interno] é equivalente ao dobro da soma das economias da China e da Índia”. Não tenho conhecimentos suficientes para perceber se Zakaria está a comparar o volume dos consumos dos três países, entre si, ou de diferentes indicadores dessas economias, mas sabendo-se que estamos a falar de dois dos países mais populosos do planeta – a China e a Índia – a imagem é para respeitar. Por outro lado, convidar os norte-americanos a consumir não será apenas uma questão de retoma na confiança, mas de uma espécie de profissão de fé no sistema financeiro tal como sempre o conhecemos até Setembro/Outubro do ano passado. Ora, isso assusta-me e já explico porquê.

Puritanos, poupados e trabalhadores.
Pensei nada escrever. Afinal, que entendo eu de economia? Para mais, de economia global? Mas é possível que a ultrapassagem dos períodos críticos careça de opiniões, de muitas opiniões, particularmente se baseadas em factos e argumentos. E a verdade é que esta coisa do consumismo nunca me convenceu. Muitas vezes penso que a minha desconfiança relativamente à ideologia do consumo deve alguma coisa à minha cultura cristã, católica romana, (isto é, da Europa do sul) já que as crenças, não apenas religiosas, sempre desempenharam um papel fundamental, senão mesmo determinante, na história das nações, na história do dinheiro, na política em geral. Muitos analistas referem a condenação moral do “lucro” pelos clérigos da idade média e pelo discurso oficioso da contra-reforma como uma das matrizes que mais contribuiu para a emergência de um mercado monetário autónoma, de uma rede de serviços financeiros, com as suas sedes nas grandes metrópoles da Europa e do Médio Oriente.

O próprio Zakaria escreve, a dado passo no citado artigo, que “enquanto [cidadãos] americanos levam-nos a acreditar que somos geneticamente codificados para consumir. Na verdade não se trata de uma questão de ADN. Historicamente, os norte-americanos têm sido vistos como puritanos, poupados e devotados trabalhadores.” Apesar disso, porém e de acordo com o articulista, a cultura consumista cresceu, particularmente a partir do início da década de 70 do século passado, pelo efeito conjugado de alguns factores. Por um lado, havia o receio de que a inflação monetária digerisse os magros juros pagos pela banca aos depositantes, por outro, os governos das economias ocidentais promoveram políticas de estímulo ao consumo, induzidas através do acesso ao crédito barato, sem contrapartidas políticas de apoio à poupança.
Por uma ecologia dos ciclos produtivos.

Se observarmos com um pouco mais de atenção o ciclo de vida de um produto, desde a colheita da matéria-prima de base, passando pela transformação, comercialização, venda e consumo, rapidamente percebemos que nada sabemos do que se passa “depois”. Qual o tempo de vida útil do produto, conforme se trate de um consumível, um objecto ou um utensílio? Uma vez descartado, o que sucede aos seus componentes? Reintegram-se rápida e facilmente no ciclo produtivo ou permanecem em processo de degradação “natural” por tempos mais ou menos determinados? Tomemos como exemplo a indústria automóvel. Certamente já todos pudemos ver, através dos diferentes media, uma linha de produção de veículos motorizados. Mas já nos foi dado observar o seu negativo, isto é, uma linha de desmontagem? Sejamos honestos. Apesar dos esforços e das pequenas conquistas, a verdade é que o sistema está ainda longe de ser sustentável e, como tal, apelar ao consumo, sem mais, é convidar à contínua degradação dos recursos com as consequências ambientais, logo sociais e, por fim, económicas, já conhecidas.

Enquanto economicamente não for compensador integrar as fileiras de reciclagem nos ciclos produtivos, apelar ao consumo é fazer com que retomemos o curso da espiral de crescimento, em pirâmide, que não tem outro destino que não seja a ruptura a prazo. A não ser que o Universo esteja realmente em expansão - até quando? - nada pode crescer indefinidamente, muito menos a partir de recursos limitados e em contexto de equilíbrio precário como é o dos nossos frágeis eco-sistemas.
Uma Outra Economia.
O Ouro já foi. O sistema monetário, de que o Dólar norte-amerciano terá sido o expoente máximo, chegou aonde chegou e tem, a meu ver, os dias contados. Poderá acontecer, e é o mais certo, que as mudanças que se avizinham venham a ser não apenas imprevisíveis, passe a redundância, mas que não ocorram em tempo de vida das gerações contemporâneas. A economia do futuro, que se adivinha e é já teorizada, será a economia assente sobre um valor imaterial e difícil de medir: a economia do conhecimento e da criatividade. O desafio que se coloca às nossas gerações é o de perceber qual o papel reservado aos recursos primários, particularmente os relacionados com os alimentos, mas também com a água e o ar de cuja qualidade estamos absolutamente dependentes. O desafio que se coloca é o de perceber o que é que a produção de conhecimento tem que ver com isso.

Tenho estado atento aos discursos, avisados, de um certo retorno a tudo o que é local: a agricultura, o artesanato, a cultura, a economia. Mas vejo nisso muito mais uma espécie de recuo estratégico, um “parar para pensar”, sem deixar de considerar que, na dúvida, melhor será observar bem a realidade envolvente, antes de nos precipitarmos numa aventura sem horizonte.
Por isso temo por esta solução: abram as carteiras e comecem a consumir. Porquê? Para quê?
Terça-feira, 28 de Julho de 2009
Eles vêm aí!...
Os Zés da Mafalda estão a chegar!...


Na VII Feira da Terra, de 30 de Julho a 2 de Agosto de 2009, em Mondim de Basto.
Sábado, 25 de Julho de 2009
A "Noite da Terra"
Foi a "Noite da Terra", uma mostra do que pode ser transversal e unir-nos, antes e depois das origens, da cultura, do estatuto social, das opções políticas. Os lugares, as freguesias, desceram às ruas da Vila, em forma de romaria, a pretexto de um Santo, de uma Tradição, afinal recente. A véspera do Santiago é "a noite". Uma noite que prescinde de actores pagos, de animadores e de espectadores ensonados porque os actores, os animadores e os espectadores somos nós. Tem lugar em recinto aberto, sem entrada nem saída, sem seguranças, sem horários nem esplanadas.

Temi que a política, este ano, estragasse a festa, com aproveitamentos escusados, mas a Tradição, que já não é o que era, cumpriu-se. Tapados pelos panos do palco, na avenida, estão dois "outdoors" gigantescos que, lidos na horizontal, nos dizem que "Agora, Mondim" é "Mondim, para todos". Não sou eu que o digo, são eles, os candidatos. Pelo menos, nesta "Noite da Terra", foi. É um bom augúrio.